Outback Yula Jorge

Yula Jorge

Patamar da sensibilidade e do respeito


Fotos Cristiano Prim

Roberta Oliveira, 29 anos, bailarina, professora de dança, mãe de Luiz Augusto e Clara, uma dos dez integrantes da Companhia de Dança Lápis de Seda, conduz sua vida no fio da navalha, nos desafios de uma vida que são os mesmos daqueles que optam por viver da arte. 

 

Sem reclamar, num corre-corre danado, dança e atua como professora de balé clássico. Formada pela Royal Academy of Dance, obteve graus de distinção em seus exames. Teve como principais professores e maitres Jair Moraes, Renata Justino, Marta Cesar, Nancy Bergamin e Ana Luiza Ciscato. Atuou como professora de balé para crianças, adultos avançados, intermediários e iniciantes na Estação Dançar de 2005 a 2012, onde ministrou aulas com técnicas mistas e foco na musicalidade.

 

 

Deu aula na Apae (Associação de Pais e Amigos de Excepcionais) de Florianópolis e, desde 2011, é bailarina do Grupo Apae Dança Floripa. Desde 2015, ensina balé fitness, balé clássico e jazz nas acadêmicas Salão de Dança e Academia de Dança Aline Mombelli, ambas em Florianópolis. Compõe e corpo docente da ACV (Associação Caminhos para a Vida), onde atende pessoas consideradas com deficiência intelectual e/ou múltipla.

 

Nesta entrevista exclusiva, ela fala de sua trajetória e atuação na Companhia Lápis de Seda que reapresentará neste mês o espetáculo “Convite ao Olhar” e estreará o novo trabalho, a montagem “Será que É de Éter?” (serviço abaixo), no Teatro Ademir Rosa, no Centro Integrado de Cultura (CIC), em Florianópolis. Evita rótulos e busca não classificar o que faz como bailarina, embora atue ao lado de seis bailarinos considerados com deficiência física e/ou intelectual. “Somos felizes, esse é o nosso diferencial”, diz ela que aprendeu sobre a simples, porém complexa, descoberta: “Ser diferentes nos faz iguais”.

 


 

Qual é a pergunta que não quer calar quando você pensa em dança e sua vida?

A pergunta seria: qual será o resultado das minhas escolhas? Qual será o destino da minha yellow brick road? Porque todas as minhas escolhas, quando se fala em dança, tomo com o coração. A dança, para mim, não é uma ferramenta de trabalho, é um meio de chegar dentro de mim mesma.

 

O que a dança é na sua vida?

A dança nunca teve um significado específico, eu sempre estive ali e ela sempre esteve por perto. Faz parte de mim de maneira muito natural. É como se fosse a minha boca, a minha voz, minha primeira língua. É como eu expresso o que não sei expressar, como descubro coisas que nem sabia que sentia.

 

O que significa ser uma bailarina no Brasil? Como situa a questão em relação sobretudo à ausência de recursos voltados à cultura?

Passei anos em busca de uma profissão, pulando de curso em curso, de trabalho em trabalho, tentando me encaixar em algo que me trouxesse estabilidade e prazer. Nunca encontrei. Quando dei por mim, há uns anos, olhei meu currículo como bailarina e professora de dança e descobri que havia me formado e trilhado caminhos importantes que traziam peso e experiência como profissional. Aí decidi abraçar a dança como uma parte mais séria da minha vida.

Se houvesse mais oportunidades, se a dança, a arte e a cultura fossem mais valorizadas, seria minha primeira escolha. Não seriam necessários os anos perdidos de busca e de dúvida. E, por fim, encontrei o prazer, o propósito, mas continuo sem ter encontrado a estabilidade. Apenas como bailarina, a escolha da vida, não consigo me sustentar. Paralelamente dou aulas e trabalho em outros projetos relacionados à dança. Assim como eu, existe um mundo inteiro de bailarinos escondidos, de professores e coreógrafos, todos dentro de engenheiros, médicos, gerentes e empresários.

 

Roberta e Ana Luiza Ciscato

 

Como e quando ingressa na Companhia Lápis de Seda e o qual o significado que esse trabalho assume em sua carreira?

A Lápis de Seda sempre existiu. Sempre trabalhamos juntos, bailarinos e diretora, há muitos anos. Trabalhávamos como tudo o que se inicia, principalmente no meio artístico. De graça. Há cerca de quatro anos o trabalho ganhou forma, um nome e uma cara mais séria. Funcionar oficialmente como companhia, receber salário e cachê me trouxe a liberdade de poder direcionar mais tempo à minha primeira escolha. Não sinto mais peso na consciência por dançar. O peso agora é positivo e aumenta à medida que a companhia cresce.

 

Dança e diferença - como situa o conceito de dança inclusiva?

Não me situo como bailarina de uma companhia de dança inclusiva. Me considero apenas bailarina. Apesar de ser esse o diferencial da Lápis de Seda, não é por isso que queremos ser lembrados.

Em uma companhia de dança o trabalho é bem objetivo, é duro e exige que deixemos nossa individualidade de lado em prol do grupo. Na companhia trazemos nossa individualidade para o palco. Isso nos faz integrantes, nos envolve ativamente, faz viver nós mesmos em cada apresentação, em cada ensaio. Somos felizes. Acho que esse é o nosso real diferencial.

 

O que é mais marcante dentro do trabalho da Companhia Lápis de Seda, que já se apresentou em Londres e neste ano faz uma turnê em cinco capitais brasileiras?

Quando nos apresentamos em Londres na abertura dos Jogos Náuticos das Olimpíadas de 2012, como parte integrante de um espetáculo inclusivo muito maior que incluía diferentes artes (como teatro, dança e circo), o primeiro sentimento que surgia era o de visibilidade, importância. Não de modo egocêntrico, mas num nível incrível de satisfação social. Não éramos ainda o Lápis de Seda, ainda éramos voluntários e alunos do Grupo Apae Dança Floripa e da Academia de Dança Estação Dançar.

Fomos vistos como o resultado de um trabalho pioneiro de dança e inclusão em nível mundial, e que foi levado à Europa. A viagem nos fez mais que isso. Fez perceber um novo patamar de sensibilidade e respeito que nos era desconhecido. Me abriu os olhos sobre como era possível, sobre como ser diferente nos faz iguais.

Abriu os olhos de algumas das pessoas consideradas com deficiência também. Os fez viver 15 dias em que foram realmente pessoas, longe da sua realidade limitada, da falta de aceitação e conhecimento, perto do brilhantismo para o qual foram contratados. Executamos nosso papel como ninguém. Essa experiência nos fez crescer como profissionais e como autores da nossa própria história, e materializou o trabalho. Antes feito de intenção e aspirações, agora feito de consistência. A turnê por cinco capitais brasileiras tem um valor diferente. A mesma responsabilidade, o mesmo objetivo de sermos vistos, mas com menos glória. Nada tira a importância de uma turnê na vida de um artista, de ter seu trabalho assistido, de estar no palco. De estar em diferentes palcos. Ou de estar na rua, ou na grama.

Mas é muito visível a falta de valorização da arte e da cultura para a formação do ser. Esse ambiente traz um quê de protesto às nossas ideologias. Nos faz muito mais do que artistas estéticos. Nos faz ativos na formação de opiniões e transformadores da realidade.
 


 

Você dá aulas, atende crianças e também um grupo de idosas. Fale um pouco dessa experiência. Quais os diferenciais nestas duas pedagogias?

Todos os processos têm o seu começo no respeito ao indivíduo e na consciência coletiva de criar oportunidades. Considerar todas as pessoas como capazes de absorver conhecimento, de aprender e se desenvolver é o princípio que me une ao ensino. E a capacidade de individualizar esse aprendizado é a ferramenta que me permite atingir grupos tão diferentes.

Modelos de ensino nem sempre se aplicam, aliás quase nunca. A verdadeira pedagogia do meu trabalho é a empatia. É me colocar no lugar do aluno, a partir da sua realidade. Transmitir o meu conhecimento adquirido por meio de experiências proporcionadas não apenas em um nível acadêmico, mas de uma maneira mais sólida e mais viva, que passa pelo sentimento, pela alegria, pela consciência de grupo, pela solidariedade.

 

Você tem uma relação com o universo da tatuagem e um corpo tatuado. Como vê o fato de alguns pesquisadores desse universo defenderem como ideal um corpo sem tatuagem. A tatuagem, segundo eles, interfere como uma informação a mais dentro do contexto de um espetáculo. Qual é o seu pensamento a respeito?

É uma questão interessante, essa estética. Essa que busca através de elementos nos impressionar, nos agradar os olhos (ou não), que tem um motivo de ser. Mas é um fator limitador, e para mim a arte não tem limites. Ao abrir a mente e perceber a arte além das barreiras do excesso, do diferente, da deficiência, das tatuagens, do peso, do desequilíbrio, é tudo belo, é tudo arte.

É parte integrante da minha dança, é meu protesto pessoal, é a minha deficiência. É o que me faz exclusa e o que me inclui. Talvez num universo classicista ou realista me faria a diferença, mas meu universo é expressionista e não inclui padrões.

 

 

Toma lá dá cá

O que você não fica sem: leite condensado

O que mais admira: a mudança

O que não suporta: hipocrisia

Um ídolo: Karl Marx (por sua ideologia)

Uma saudade: A inocência

A melhor viagem: Inglaterra

Um lugar: Eu mesma

Um livro: “O Mundo de Sofia” (pelo seu poder de fazer uma criança despertar)

Uma música: “Como Nossos Pais” (Elis Regina)

Uma palavra: liberdade

Uma frase: Se a vida te der limões, faça um suco de laranja

Um sonho: paz na terra

 

Serviço Florianópolis
Espetáculo Convite ao Olhar
O quê: Convite ao Olhar – Cia. de Dança Lápis de Seda
Quando: 23.11.2017, 15h
Onde: Teatro Ademir Rosa, Centro Integrado de Cultura (CIC)
Quanto: Gratuito

Serviço Florianópolis
O quê: Será que É de Éter – Cia. Lápis de Seda e Claudia Passos
Quando: 24.11.2017, 21h
Onde: Teatro Ademir Rosa
Quanto: Gratuito

Serviço Blumenau
O quê: Será que É de Éter – Cia. Lápis de Seda e Claudia Passos
Quando: 29.11.2017, 20h
Onde: Teatro Carlos Gomes, rua 15 de Novembro, 1.181, centro, Blumenau, tel.: (47) 3144-7166
Quanto: R$ 40 / R$ 20 (meia)


Realização: Arte Movimenta
Patrocínio: Ministério da Cultura e Cateno
Apoio: Governo do Estado de Santa Catarina/Secretaria de Estado do Turismo, Cultura e Esporte/Fundação Catarinense de Cultura, Associação dos Moradores do Sertão do Córrego Grande (Amosc), Garagem da Dança, Mercado Limeira, Fecoagro, Projeta Planejamento e Marketing, Prefeitura Municipal de Florianópolis

 



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