Cine&Séries

Os ritos de passagem como inspiração para belos filmes




Se eu fosse uma grande escritora diria que estava com um bloqueio criativo, total falta de inspiração para a coluna desta semana.  Falar sobre carnaval em plena terça-feira da festa? Ninguém aguentaria depois da exaustiva cobertura na televisão...Até que recebi um texto entusiasmado  do  amigo, jornalista e cinéfilo Anselmo Prada sobre "Me chame pelo seu nome". Quem acompanha a Cine&Séries sabe o quanto gosto quando tenho palavras de  outros autores que não só as minhas para publicar. O artigo que recebi esta semana foi bem mais que isso, ele me deu o norte para o tema da coluna. Ajudou a desbloquear meus pobres neurônios e ... habemus assunto para conversar!

Primeiro pensei em cercar o tema em relacionamentos homoafetivos, mas depois achei que seria reduzir o filme. A história de "Me chame.." é bem mais ampla e comporta gays, héteros e quem mais couber.

O livro/filme conta a história de um jovem de 19 anos, Élio, em pleno turbilhão hormonal, descobertas, dúvidas comuns a todos nessa idade. Ele está numa vila italiana, quando chega o americano Oliver, assistente de seu pai no livro que está escrevendo. A partir daí, Élio é arrancado do tédio para viver as primeiras grandes emoções afetivas e sexuais de sua vida. Para não correr o risco de spoiler digo apenas que não há drama ou tragédia e um crítico até escreveu que " felicidade demais deixa o filme monótono".  "Me chame..." causou polêmica pela diferença de idade entre os personagens principais, principalmente em Hollywood, que vive essa onda moralista dúbia.

Já enrolei muito, né? Vamos falar de filmes sobre descobertas, sobre aquele momento complicado e maravilhoso em que abrimos os olhos para a Vida, assim mesmo com "V" maiúsculo. Podemos definir como "rito de passagem". Às vezes de forma bem dolorosa, como veremos em algumas obras.

HOUVE UMA VEZ UM VERÃO (Robert Muligan, EUA, 1971)

É tão óbvio começar com esse filme que quase dá vergonha. Mas, entre as centenas de filmes que os americanos chamam de "coming of age", esse é um clássico, delicado e belo. Três garotos vão passar as férias do verão de 1942 ( título original ) em uma praia. Hermie tem 15 anos e uma série de dúvidas sobre a vida, o mundo, amor e sexo...Ele conhece Dorothy, uma mulher cujo marido está na guerra. Logo ele se apaixona pela doce e bela (aliás, belíssima Jennifer O`Neil ). Esse verão marca o rito de passagem de Hermie que sai dali muito mais maduro do que chegou. A trilha emocionante de Michel Legrand, ganhou o Oscar desse ano.

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CLAMOR DO SEXO (Elia Kazan –EUA - 1961)

Já falei sobre esse filme em outra edição. Provavelmente escrevi que acho um dos filmes mais tristes que já vi. Ninguém morre, não tem assassinato nem história de doença rara. A dor está justamente no oposto ao "Me chame pelo seu nome", assunto de "Outras Palavras". Em "Clamor do Sexo" o desejo não se cumpre, o amor não se completa, tudo em nome da moral da época destinada às "moças de família". Warren Beatty é Bud e Natalie Woody, em interpretação comovente, é Deanie.  Se conhecem em pleno "esplendor da relva", mas se afastam porque é proibido desejar e fazer sexo. Estou simplificando, mas é por aí. O final é de cortar o coração. Leia mais em " Hasta la vista, baby-Frase de Cinema".

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VERDES ANOS (Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil – Brasil – 1984)

Na época, um raro filme feito fora do eixo Rio-São Paulo. Os dois gaúchos eram jovens cineastas ( os dois meninos da frente na foto) vindos do formato Super-8, com quem tive o prazer de conviver em algumas edições do Festival de Cinema de Gramado. Enquanto, os grandes astros e cineastas famosos desfrutavam das mordomias do Hotel Serra Azul, o QG do Festival, nós comíamos sanduíche de salame italiano num boteco antigo da cidade serrana.

Bom, findo o momento nostalgia, vamos falar de "Verdes Anos".  A história se passa nos anos 70, tendo como pano de fundo a repressão política dos tempos da ditadura militar no Brasil ( essa que alguns ousam dizer que nem existiu ou que foi branda...tsc.tsc...). Um tanto alheios a isso, um grupo de adolescentes estava vivendo o que lhes cabia: preocupações com o futuro, com o cotidiano, as brigas de namoro, conflitos de geração com pai, mãe etc...O relato desse universo está contido em três dias, embalados pela música da reunião dançante ( a balada caseira da época). Esse período é vivido como um sonho, quase um intensivo da passagem dos verdes anos para o mundo adulto.

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MALENA ( Giuseppe Tornatore – Itália/Eua – 2000)

Tornatore é bem conhecido por " Cinema Paradiso", aquele que quem viu chorou. Em "Malena" o cenário é a ensolarada Sicília, terra natal do diretor. Como se não bastasse a beleza geográfica , Malena é vivida pela deslumbrante Monica Belucci. O garoto Renato vive em um vilarejo à beira-mar nos anos 40. Aos 13 anos ele está naquela encruzilhada entre a infância e o amadurecimento, o tal rito de passagem de que temos falado. Assim como os outros meninos da vila, ele é apaixonado por Malena, a viúva de um soldado morto na guerra. Há um olhar terno e protetor de Renato sobre a bela mulher que ele levará para sempre na memória.

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OS INICIADOS ( África do Sul/Alemanha/França/Holanda – 2018)

Filme recém chegando ao Brasil e, como ainda não vi, vou usar a sinopse oficial. Seja como for, tem a ver com nosso tema, embora aqui o ritual de passagem seja bem outro, difícil e estranho à nossa cultura.

Cabo Oriental, África do Sul. Xolani, um operário solitário, viaja para as montanhas rurais com os homens de sua comunidade com intuito de atuar nos rituais de Ulwaluko, que consiste na circuncisão de adolescentes de origem Xhosa para que eles ingressem finalmente na vida adulta, tornando-se homens. Xolani assume a responsabilidade sobre um garoto da cidade que o pai teme ser homossexual e, quando o iniciante questionador descobre seu segredo mais bem guardado, o operário não tem mais paz. (fonte:Adoro Cinema).

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VIDAS SEM RUMO e O SELVAGEM DA MOTOCICLETA( 1983)- Francis Ford Coppola

Nos tempos em que Francis Ford Coppola era profícuo ele filmou essas duas películas na sequência. Primeiro "Vidas sem Rumo" e depois o melhor, "O Selvagem da Motocicleta" (Rumble Fish). Ambos falam de jovens entrando na vida adulta, angustiados com a vida e o futuro. São de famílias desestruturadas e formam pequenas gangs. Essas películas lançaram ao estrelato nomes até então desconhecidos : Matt Dillon, que está nos dois filmes, Nicolas Cage, Mickey Rourke, Rob Lowe, Diane Lane...

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AZUL É A COR MAIS QUENTE ( França- 2013)

Ganhador da Palma de Ouro, esse filme conta a história de Adéle que, aos 15 anos, encontra uma grande e inesperada paixão em Emma, a jovem de cabelos azuis. As descobertas que marcam a passagem para a vida adulta, porém, não são fáceis. Adéle tem que enfrentar o preconceito e a pressão social e familiar para viver essa paixão (Leia mais em "Beijo de Cinema").

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OUTRAS PALAVRAS

                                                                        Anselmo Prada (*)

Você entra de cinema  para ver o filme que, entre tantos da última temporada, falam de  diversidade  sobre relações possíveis num mundo que  busca cada vez mais o respeito  ao diferente. E aos poucos  a trama o  coloca  num patamar de  emoções  que vão muito além da própria história, pela formação intelectual dos personagens e pelos diálogos  de uma literatura  que a grande maioria da  nova geração não entende bem, não se permite ou  considera desnecessário saber, quem sabe porque precisa apenas sobreviver e pensar pouco para não sofrer muito. Mas esta temática seria outro filme.  

"Me Chame Pelo Seu Nome"  leva você ao passado de si mesmo,  quando a descoberta do amor e do sexo, não necessariamente nessa ordem,  provoca aquela enorme pulsação mental e corporal,  o desejo  se conecta  aos seus instintos e começa a tentar viver  suas fantasias e amargar com as perdas.

Ao nos levar para um cantinho da Itália, numa temporada de férias, que poderia ser  em qualquer lugar do mundo,  num ambiente de muitas culturas,  dois jovens  encontram  a chave para  a descoberta de sentimentos e tentativas ambíguas de  como a gente faz para seguir o rumo da vida,  experimentando, gostando,  negando, tentando, permitindo  e sofrendo, mas acima de tudo vivendo o encantamento  das decisões incontroláveis. 

Gostei da simplicidade como os temas são trazidos e tratados,  tudo muito parecido com  a maioria das  descobertas que já tivemos  ou vamos ter,  mas não  de forma comum sobre  desejos, paixões e  aquela vontade genuína de  que tudo seja para sempre. 

Elio (Timothée Chalament) e Oliver (Armie Hammer) , dois jovens , um saindo da adolescência  e  outro já na vida adulta ,  nos mostram  que o caminho das descobertas  são sempre inesperados, mas que  não  podemos  nos negar  o direito de experimentar. 



Essencialmente, além  de  mostrar que na vida muitos amores  podem ficar no tempo, o filme me emocionou pela capacidade do pai de Elio entender seu filho,  saber que  não  se trata de ser gay ou hétero, mas que  a vida traz oportunidades  que precisam ser experimentadas, que  se possa sentir o sabor das relações e  que elas trazem alegrias e  tristezas.

"Me Chame Pelo Seu Nome" nos devolve  a certeza sobre como o despertar da sexualidade,  a descoberta do amor  e  amadurecimento  existencial nunca terminam.

(*)Jornalista

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O LIVRO QUE VIROU FILME

A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM ( THE GRADUATE – CHARLES WEBB – 1963)

Muita gente não sabe que o filme tão famoso é adaptação de um livro. Pois, "The Graduate" foi o primeiro romance do autor americano, Charles Webb. A história seria baseada no que o escritor viveu em Pasadena, mas isso nunca foi confirmado. Basicamente, ele relata as aventuras de um jovem recém-formado, seduzido durante as férias pela amiga de seus pais, Mrs. Robinson, uma mulher madura e decidida. Tudo se complica quando ele se apaixona pela filha da senhora Robinson. O jovem Benjamin completa assim seu rito de passagem para a vida adulta, todas as experiências concentradas em um breve período de férias.

Parêntesis: hoje a história seria tão polêmica por causa da diferença de idade entre os personagens como está sendo com " Me chame pelo seu nome" ( no caso, apenas 8 anos...)??? Huuummm...vai pensando aí!

Charles Webb teve outros livros adaptado para o Cinema, como "Hope Springs-Um Lugar para Sonhar", com Colin Firth.

 

O FILME

Direção : Mike Nichols – 1967 –

A versão de "The Graduate" ( no Brasil, com o "criativo" título de "A Primeira Noite de Um Homem") é uma daquelas raras considerada melhor que o livro. Não posso confirmar porque não li o livro, mas o filme é mesmo ótimo. A história é simpática e divertida. Além de tudo, o filme revelou ao mundo um ator baixinho, meio narigudo, diferente dos galãs da época, que viria a ser tornar um dos maiores astros de Hollywood: Dustin Hofman. Contracenando com ele a maravilhosa Anne Bancroft, no papel da "coroa" sedutora. Embalando tudo isso, a canção icônica de Simon & Garfunkel: "Mrs. Robinson". Quem daquela geração não cantarola "And here's to you, Mrs. Robinson..hey hey hey, hey hey hey... ?! . Precisa dizer mais ? Se 50 anos depois você ainda não viu, não sabe o que está perdendo.

"A Primeira Noite de um Homem" ganhou vários prêmios, inclusive merecidamente o de melhor direção para Mike Nichols.

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EM CARTAZ

Entrada gratuita

De 15 a 18/02 – 20h - Cinema do CIC –Centro Integrado de Cultura, Flops -

Para Sempre Lilya

Direção: Lukas Moodysson

Gênero: Romance, Drama

Ano: 2002

Duração: 109 minutos

País: Suécia

Classificação indicativa: 16 anos

Sinopse oficial : Lilya tem 16 anos e vive em um subúrbio pobre, em algum lugar da antiga União Soviética. Sua mãe mudou-se para os Estados Unidos, com seu novo marido, e Lilya espera que ela lhe envie algum dinheiro. Após algum tempo sem receber notícias nem qualquer quantia dela, Lilya é obrigada a se mudar para um pequeno apartamento, que não possui luz nem aquecimento. Desesperada, ela recebe o apoio de Volodya, um garoto de apenas 11 anos que de vez em quando dorme no sofá de Lilya. A situação muda quando Lilya se apaixona por Andrei, que a convida para iniciar uma nova vida na Suécia. Apesar da desconfiança de Volodya, Lilya aceita o convite e viaja com Andrei.

A realização é uma parceria da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), administradora do espaço, e Unisul campus Pedra Branca, responsável pela programação. 

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PIPOCA NEWS

17/02 - 16 h – Cinema do CIC –Centro Integrado de Cultura, Flops – Entrada gratuita

Os Caçadores de Saci (de Sofia Federico, ficção, Bahia, 2005, 13')

A chácara da pacata família de Onofre vem sendo assombrada por Saci: a pipoca não arrebenta, o ovo não choca, o leite sempre azeda, o feijão vive quimando na panela, entre outros estranhos acontecimentos.

De Martelos e Serrotes (de Jackson Abacatu, animação, Minas Gerais, 2012, 2')

Trabalhadores em uma oficina de marcenaria.... Ou não?

Sonhos (de Haroldo Borges, ficção, Bahia, 2013, 15')

O menino vive buscando motivos para fugir da escola. Um dia, ele encontra o motivo perfeito: a garota mais bela que ele já viu. Mas ela mora em um circo e ele não tem dinheiro para entrar. O menino embarca na grande aventura de crescer.

Cadê o Meu Rango (de George Munari Damiani, animação, São Paulo, 2012, 4'10'')

Bernard, preguiçoso e solitário, leva a vida tranquilamente em seu aconchegante lar. Certa manhã vai pegar sua comida, mas não a encontra. Quem pegou? Bernard encara o roubo como um desafio e busca formas de encontrar esse "ladrão".

Encantadores de História (de Raquel Platino, animação, Distrito Federal, 2013, 7')

Através da música e movimento, personagens inspirados no livro As mil e Uma Noites celebram a continuidade da vida e o renascimento do maravilhoso. Uma atmosfera mágica onde reinam gênios e humanos viajantes por terras infinitas e inimagináveis.

Disque Quilombola (de David Reeks, documentário, Rio de Janeiro, 2012, 13')

Crianças do Espírito Santo conversam de um jeito divertido sobre como é a vida em uma comunidade quilombola e em um morro da cidade de Vitória. Através de uma brincadeira, revela-se o quanto a infância tem mais semelhanças do que diferenças.

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BEIJO DE CINEMA

Dois beijos, um cheio de alegria e esperança de que algo bom surgiu na sua vida; o outro de despedida, de desesperança e a certeza de que nada tão extraordinária vai acontecer de novo...

O azul é a cor mais forte (Adéle/Adéle Exachorpoulos e Emma/Léa Seydoux

No Clamor do Sexo (Bud/Warren Beatty e Deanie/Natalie Wood)

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FRASE DE CINEMA

A frase é de Cinema porque está em " Clamor do Sexo", cujo título original é "O Esplendor da Relva", mas são versos do inglês William Wordsworth , que viveu entre 1770 e 1850, sendo considerado um dos maiores poetas românticos do mundo.

Deanie, a personagem de Natalie Wood, lê os versos de Wordsworth em sala de aula, em tom quase de lamento...

 "Embora nada possa trazer de volta a hora 
do esplendor na grama, da glória nas flores, não devemos lamentar porque a beleza sobrevive para sempre na lembrança". 
(Ode à Imortalidade).



E aqui, Benjamin/Dustin fazendo a pergunta óbvia a Mrs. Robinson...

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MENS@GEM PARA VOCÊ

Puxa, você pegou pesado desta vez. Fiquei muito comovida. Parabéns pelo lindo trabalho que você tem realizado com temas vibranres e comentários esclarecedores e precisos. Que em 2018 sempre estejamos conectadas com Cine&Séries e as emoções que nos oferece!!! (Neuza Vollet,Flops)

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Quem ama as amigas se emociona com essa coluna, Brigida De Poli. Demais esse texto, histórias reais, lindas, mágicas. Parabéns. Queria ler mais!! Também não me conformo que acabou! (Juraci Perboni, Flops)

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Minha querida Brigida, consegues colocar em palavras aquilo que a gente fica imaginando. Sim, fazemos parte de uma sororidade! Obrigada por me trazer à memoria o filme Julia. Foi um filme referencial para mim! Eu o havia esquecido completamente e (o incrível dos acontecimentos da mente na velhice) acabei lembrando da noite em que fui assistir este filme ali no Vogue!) Bem, mas agrego também um filme que me emocionou. o Flores de Aço, de 1989. Um elenco incrível e a Olympia Dukakis impagável! (Deborah Matte, RS)

Obrigada pelos elogios e pela emoção que vocês sentiram com a coluna sobre a sororidade no Cinema. Assim dá gosto escrever.  Brígida.

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Sobre a colunista:

Brígida De Poli é jornalista. Cinéfila desde criancinha converteu-se à mania das séries de TV depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de compartilhar ideias sobre a sétima arte.

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Huuum, deve ter muitas Mrs. Robinson lendo a coluna, mas acabou !

THE END



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