Cine&Séries

O Cinema entra em campo




CINEMA & FUTEBOL

Há quem ame cinema e não curta futebol. Há os que são loucos por futebol e não ligam para cinema. Mas quem é apaixonado pelos dois vai adorar esta edição.  É uma seleção de películas sobre o jogo tradicional, aquele desenvolvido na Inglaterra ( sua criação é atribuída aos chineses já no século III a.C, mas não vamos entrar na polêmica dos pesquisadores). O que quero dizer é que não estarão aqui o futebol americano, beisebol e outras variações que os americanos já mostraram aos montes nas telas, ok ? Bem, pra começo de conversa: ainda não fizeram "O" filme sobre o esporte bretão.  Os roteiros  no cinema brasileiro, uma das terras do futebol, poderiam ser mais criativos. Desconheço que haja na outra terra latino-americana do futebol, a Argentina, algum filme excepcional sobre o tema. Bueno, mas vamos ver o que consegui para apresentar a vocês sobre o que já foi chamado de "o ópio do povo" (e, acrescido por Millor Fernandes, de "o narcotráfico da mídia").

Antes de entrar em campo: diferentemente das outras edições não vi todos os filmes da lista.  Mas como confio no meu faro, bola pra frente !

 

FUGA PARA A VITÓRIA ( 1981)

Dirigido pelo grande John Houston tornou-se um clássico sobre o tema. A história é baseada em fatos: em um campo de prisioneiros da segunda guerra mundial, um major alemão ( Max Von Sydow) tem a ideia de promover uma partida entre soldados e prisioneiros. Os alemães querem ganhar para fazer propaganda do nazismo e os jogadores aliados planejam uma fuga durante o jogo, liderados pelo capitão John Colby ( Michael Caine). A presença de Pelé como ator e responsável pela coreografia dos movimentos em campo da grande partida é uma atração à parte.  

Curiosidade: Sylvester Stalone , que emagreceu 40 quilos para o papel de prisioneiro, queria fazer o gol da vitória. O problema é que ele era o goleiro e não faria muito sentido. Reza a lenda que incluíram o pênalti como prêmio de consolação para Stalone.

 

FEBRE DE BOLA ( 1997 e 2005)

Na versão inglesa original do filme ,baseado no livro de Nick Hornby, Colin Firth vive um professor fanático por futebol. Ele segue o Arsenal em todas as partidas. Ele conhece Sarah ( Ruth Gemmel) e ela logo percebe que o namorado dá mais atenção ao futebol que a ela. Como lidar com essa paixão desenfreada e as situações divertidas que surgem daí são a graça do filme. Nas palavras de Paul " a vida se complica quando você ama uma mulher e reverencia 11 homens"!

No remake americano, o papel ficou com Jimmy Fallon, hoje mais conhecido como apresentador de TV. A namorada é vivida por Drew Barry Moore. Além dos atores, mudou também o esporte: em vez de futebol, baseball; em vez do Arsenal, o Boston Red Sox.

 

THE CUP (1998)

"A Copa" foi o primeiro filme da história rodado no Butão. Conta a história do jovem monge Orgyen que tem uma grande paixão: o futebol. Em plena época da Copa do Mundo de 1998, ele faz de tudo para conseguir assistir as partidas das principais seleções do campeonato. Ele e seu amigo Lodo tentam driblar a vigilância do mestre Geko, criando situações divertidas. Um filme fofo.

 

O MILAGRE DE BERNA ( 2003)

O filme conta a história do primeiro título alemão na história do Mundial, em 1954, sob a ótica de uma família praticamente destruída pela segunda guerra mundial. O diretor foi entremeando a conquista na cidade suíça de Berna com a luta dos alemães para se reerguerem econômica e moralmente no pós-guerra. É uma abordagem sensível, sem ser piegas.

 

MALDITO FUTEBOL CLUBE (2009)

A história se passa na Inglaterra nas décadas de 60 e 70 e fala do legendário técnico de futebol e ex-artilheiro Brian Clough (Michael Sheen).  Ele ganhou respeito comandando um pequeno time, que deixou a última posição do campeonato e assumiu a liderança. Com isso, ele é convidado para treinar o gigante Leeds United. Apesar da antipatia pelo time, ele aceita o cargo.  Clough teve que enfrentar o ego e caprichos dos jogadores , postura que ele detestava e atribuía ao técnico anterior.  Ele durou 44 dias no cargo.

 

À PROCURA DE ERIC ( 2009)

Mais um filme inglês sobre futebol. A vida do carteiro Eric Bishop está um caos e ele precisa de coragem para mudar, enfrentar a mulher por quem se apaixonou há 30 anos etc...Um dia, após fumar um baseado, surge o seu "mentor": o grande jogador Eric Cantona. O próprio Cantona, astro eterno do Manchester United, interpreta a si mesmo. O diretor Ken Loach , ganhador recente da Palma de Ouro em Cannes com "Eu, Daniel Blake" fez um filme mais leve para contar a história de Eric.

 

Outros mais : Gol-O Sonho Impossível, Lições de um Sonho, Kung-Fu Futebol Club, A Um Passo da Glória, o chileno "Histórias de Futebol", o irlandês "A Aposta"...

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O LIVRO QUE VIROU FILME

NUNCA HOUVE UM HOMEM COMO HELENO (Marcos Eduardo Neves - 2006 - Editora Zahar- Livraria da Folha )

Um dia alguém deve ter dito: a vida de Heleno de Freitas daria um livro. E deu. O jornalista Marcos Eduardo Neves escreveu a biografia do maior craque do Botafogo antes da era Garrincha, com seus altos e baixos, melhor dizendo, baixíssimos.

A resenha da editora diz : " é a fascinante história desse craque-problema, desde o nascimento do jogador, na pequena cidade mineira de São João Nepomuceno, até seu dramático fim de vida, e revela todos os personagens que povoavam aquele momento mítico do futebol brasileiro.

O jogador teve uma vida intensa. Ídolo nos gramados e frequentador da alta sociedade carioca, era boêmio, perfeccionista, impulsivo e viciado em lança-perfume e éter. No fim da vida, sofrendo de sífilis e consumido pela doença, foi internado em um hospital psiquiátrico em Barbacena, Minas Gerais. Morreu, em 1959, em um sanatório, considerado louco ".

 

Trecho do livro:

" Quando o Botafogo saía de casa para enfrentar times pequenos, os zagueiros cutucavam: lá vem o "viadinho" de Copacabana. Tudo porque (Heleno) deixava o vestiário com as pernas brilhando da massagem de aquecimento, encharcadas de óleo. E um penteado à base de gomalina que, aliada à beleza física, lhe dava um ar de Rodolfo Valentino de chuteiras. Era uma vedete."

HELENO, O FILME ( Direção: José Henrique Fonseca – 2012)

É Rodrigo Santoro quem interpreta nas telas o jogador de futebol, formado em Direito e apreciador de ópera. Naquela época era incomum um craque que não fosse de origem humilde. Mas tinha algo em comum com muitos jogadores que a gente conhece hoje em dia: era mulherengo. A escolha para o papel foi perfeita. Além de ser um ótimo ator, Santoro é tão bonito quanto Heleno foi. Ele emagreceu 12 quilos e treinou com o jogador Cláudio Adão para dar veracidade ao personagem. O filme é em preto e branco e tem Alinne Moraes no papel de esposa e Othon Bastos, vivendo o dono do time.

Bem, não há redenção na história, como gostam de filmar os americanos, por exemplo. O filme mostra a glória, os amores, os excessos, o vício em éter e a sífilis que leva o jogador a ser internado em um manicômio até o fim da vida. Heleno morreu em 1959, aos 39 anos de idade.

 

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Fora de série

FDP (1 temporada – 13 episódios – HBO – 2012)

A série da Pródigo Filmes foi exibida pela HBO há cinco anos e, apesar de bem sucedida, parou na primeira temporada devido a uma lei do audiovisual qualquer.  Uma pena, pois a ideia é ótima. O foco da história não está no craque de futebol, mas no juiz...aquele que frequentemente é chamado pelas palavras que começam com as três letrinhas do título:fdp!

A estrutura dos episódios é muito interessante: começa sempre com um sonho do personagem principal, o árbitro Juarez Gomes da Silva ( Eucir de Souza, ótimo no papel), e termina com alguém o chamando de filho da p... ! Ele é um profissional correto, um homem sério na vida pessoal, mas os raros desvios de conduta viram uma grande confusão. Traiu a mulher uma única vez e se deu mal pra sempre. No início da série, Juarez está enfrentando o processo de divórcio e precisa voltar para a casa da mãe. Na carreira ele vai bem. Foi escalado para apitar um jogo da Libertadores depois de fazer um bom trabalho no Campeonato Paulista.

Seu melhor amigo é o bandeirinha Carvalhosa (Paulo Tiefenthaler, de

"Larica total"), responsável pelas melhores tiradas e maiores gargalhadas que eu dei durante a série. Também aparecem famosos do mundo da bola, como Dentinho e Neymar (que interpreta um faz-tudo), o jornalista Juca Kfouri e o craque Rivelino que interpreta um padre.

A riqueza do personagem pode ser explicada nas palavras do autor do argumento, Giuliano Cedroni: " o árbitro é o anti-herói perfeito. É a única profissão em que o cara chega no local de trabalho e, de cara, as pessoas já não gostam dele. Na série, ele é xingado no supermercado, no bar e até pelo amigo que torce por um time que ele prejudicou ".

"Fdp" não está mais no menu da HBO, mas foi reprisada há pouco no canal A&E  e está online na internet. Assista o trailer na abertura da coluna.

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É COISA NOSSA

Claro que o país do futebol ( ex?) merece um seção à parte. São muitos os filmes sobre o tema, embora haja mais quantidade que qualidade. Aqui, alguns deles.

 

Asa Branca – um sonho brasileiro ( 1980)

Edson Celulari, bem jovenzinho, vive o jogador de futebol de origem humilde que  acaba jogando uma Copa do Mundo. Vemos a trajetória dele saindo de um pequena cidade do interior e passando a viver com dinheiro, mulheres e muitos interesses envolvidos. Bem real, né? O elenco tinha Walmor Chagas, o empresário, e Eva Vilma. Vi a estreia no Festival de Cinema de Gramado, onde ganhou o prêmio de melhor direção. Perdeu o Kikito de melhor filme para " Pra Frente Brasil", um filme político sobre a ditadura, como exigiam aqueles tempos.

 

Boleiros ( 1998)

Um grupo de ex-jogadores se reúne em um bar para falar sobre carreira, sucesso e dissabores com o futebol. É considerado um dos melhores filmes sobre o tema. No elenco, Lima Duarte, Otávio Augusto e Rogério Cardoso. Aparecem também alguns craques verdadeiros, como o Dr.Sócrates.

 

Garrincha, a estrela solitária ( 2003)

A vida de Garrincha, um dos maiores mitos do futebol brasileiro, foi tão incrível que merecia um filme melhor. O filme conta a ascensão, o escândalo ao deixar mulher e filhos para viver com Elza Soares ( uma das maiores cantoras brasileiras hoje), a bebida, a queda... André Gonçalves e Taís Araújo nos papéis principais ajudam a deixar "Garrincha" com cara de novela.

 

O ano em que meus pais saíram de férias (2006)

Aqui o futebol é um dos panos de fundo, pois conta a história de um menino de 12 anos que tem a vida afetada quando seus pais saem repentinamente "de férias". Na verdade, eles estavam fugindo da perseguição durante a ditadura militar. A narrativa vai sendo pontuada pela Copa do Mundo, a única alegria do garoto naquele momento de tristeza e confusão. Filme sensível que mostra a dureza dos anos de chumbo que muitos desconhecem hoje em dia.

 

Linha de Passe ( 2008)

Muito bom filme de Walter Salles, um dos melhores diretores brasileiros em atividade. Quatro irmãos, criados pela mãe, empregada doméstica e que está grávida outra vez de pai desconhecido, lutam para sobreviver e se encontrar em algo. Um deles, sonha em ser jogador de futebol. A atriz  Sandra Corveloni ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes.

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EM CARTAZ

A coluna indica as exibições gratuitas de filmes em Florianópolis. Aproveite!

Estreia do curta-metragem: "Apenas o que você precisa saber sobre mim"(Novelo Filmes)

31/01 – 4ª feira - CIC-Centro Integrado de Cultura – 20h ( sessão com libras, legendas descritivas e audiodescrição)

20h30 – versão tradicional. O elenco e equipe de produção participarão de bate-papo com o público após a exibição. 

Sinopse oficial :O filme conta a história de Laura e Fábio, dois adolescentes que se conhecem depois de um esbarrão na pista de skate. A narrativa condensa os universos da adolescência, do skate e da transexualidade ao abordar temas como relacionamento, amadurecimento, paixão, discussão de gênero e empoderamento.

 

Festival Internacional de Arte e Cultura José Luiz Kinceler – Ceart/Udesc

04 a 07 de fevereiro - Shows, apresentações artísticas, oficinas, rodas de conversa, feiras de arte, exposições e mostra de cinema, estão entre as mais de 70 atividades do FIK. Como a programação é extensa, segue o link:

http://www.udesc.br/ceart/fik/programacao

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BEIJO DE CINEMA

Na falta de um beijo especial em filmes sobre futebol, vou compensar com um clipe de vários deles... ( montagem de "O Popular").

Divirta-se adivinhando quem são os beijoqueiros ( ou de quem são as obras que aparecem aqui).

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HASTA LA VISTA, BABY !

Nesta edição, as frases de Cinema dão lugar a versos de canções sobre futebol. Aliás, não me queiram mal, mas acho que somos melhor de música do que de futebol.

 

"No sentimento diagonal/do homem-gol/rasgando o chão/ e costurando a linha..." (O futebol, Chico Buarque de Hollanda)

 

Foi um gol de anjo um verdadeiro gol de placa/ que a galera agradecida assim cantava: Fio Maravilha, nós gostamos de você (...) faz mais um pra gente ver" ( Fio Maravilha, Jorge Ben Jor)

 

"Bola na trave não altera o placar/Bola na área sem ninguém pra cabecear/Bola na rede pra fazer o gol /Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?" ( É uma partida de futebol, Nando Reis e Samuel Rosa - Skank)

 

"No fundo desse país/Ao longo das avenidas/Nos campos de terra e grama/Brasil só é futebol/Nesses noventa minutos/De emoção e alegria/Esqueço a casa e o trabalho/A vida fica lá fora" ( Aqui é o país do futebol, Milton Nascimento e Fernando Brandt)

Garrincha, humilhando o adversário.

 

"Aqui na terra estão jogando futebol/ tem muito samba, muito choro e rock`n`roll/ uns dias chove, noutros dias bate o sol/ mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta ..." ( Caros Amigos, Chico Buarque e Francis Hime)

Chico, em 1975, fazendo o que gosta.

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MENS@GEM PARA VOCÊ

Sobre a coluna anterior:

E eu que achava que já tinha visto todos os filmes sobre amor na maturidade... Obrigada, Brígida, pelas informações preciosas para quem adora cinema!
 

O Robert Redford é realmente minha paixão. Mas ainda não superou o Marlon Brando. Quanta saudade daquele guri!
 

(Deborah, Porto Alegre)

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Tema interessante esse do amor na maturidade. Adorei ver o "antes" e o "agora" de Redford e Jane Fonda e também que a coluna lembrou de incluir o casal homoafetivo na lista. (Biaguiar)

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Sobre a colunista:

Brígida De Poli é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de Cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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- O quê já acabou a coluna ? Eu quero mais !!

 

THE END

 


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