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Os juízes da internet vão acabar com a propaganda


Por Luiz Carlos Pereira*

A Dove retirou sua propaganda do ar, pois algumas pessoas disseram que era uma propaganda racista.

Quem disse? Os juízes da internet. Um grupo de internautas chegou a pedir o boicote da marca com a hashtag #BoycottDove nas redes sociais.

Mas alguém perguntou a modelo da campanha o que ela achava?

Com certeza não. Pra quê?

Pois ela falou, alto e bom som, o que achou dessa proibição e do movimento gerado por essa minoria barulhenta.

A modelo Lola Ogunyemi diz que não é vítima e que o vídeo foi mal interpretado.

Em artigo publicado no jornal The Guardian, Lola afirma que seria a primeira pessoa a recusar o trabalho se fosse retratada de forma inferior às outras modelos. “Eu teria sido a primeira a dizer um ‘não’ enfático, pois iria contra tudo que represento.”

“Tive uma experiência maravilhosa no set. Todas as mulheres na filmagem entenderam o conceito e o objetivo geral, que era usar nossas diferenças para destacar o fato de que toda pele merece delicadeza,” afirma a modelo.

Lola ainda disse que “a marca poderia ter defendido seu ponto de vista criativo e a decisão de incluir uma modelo ‘de pele inequivocamente negra’ na campanha”.

“Eu não sou apenas uma vítima silenciosa de uma campanha de beleza. Eu sou forte, sou bela e não serei apagada”, escreveu Lola.

Lola ainda se mostrou indignada com o resultado do cancelamento da campanha: ‘Se você coloca ‘anúncio racista’ no Google agora mesmo, o primeiro resultado que aparecer vai ser uma foto do meu rosto. Eu estava empolgada em fazer parte de um comercial que promove a força e a beleza da minha raça. Ir contra esse conceito foi perturbador.”

A modelo garante que estava feliz por representar ‘as irmãs de pele negra em uma marca de alcance global’. ‘Parecia a forma perfeita para lembrar o mundo de que estamos aqui, de que somos bonitas e, mais importante, que temos valor.’

Mas quem é Lola para ir de encontro com o que pensam os juízes das redes sociais? Pessoas que julgam e acusam de acordo com suas crenças, tudo que entendem ser diferentes dos seus pensamentos?

Ainda pior é ter que ler profissionais de comunicação, alguns com larga experiência, afirmando que a marca errou, que não deveria entrar em uma dividida dessa, que deveria ter pensado antes de aprovar tal campanha, entre outras bobagens mais.

Pois eu penso que a marca errou mesmo. Deveria ter bancado a campanha, como a própria modelo sugeriu. Ter deixado claro que o conceito é forte e tem pertinência. Ao recuar e pedir desculpas agiu da forma mais “conveniente”, mas acabou reforçando algo que não existia em sua mensagem.

Deveria ter aproveitado o problema e lançado uma nova campanha, com a modelo Lola, posicionado o conceito com um convite ao pensar. Quando a própria modelo expressa seu pensamento ao afirmar “Eu teria sido a primeira a dizer um ‘não’ enfático...” ela deixa claro que não existe apenas um único ponto de vista sobre nenhum assunto ou tema.

Reputação de uma marca se constrói assim. Se posicionado, expressando seus pensamentos, defendendo suas ideias, provocando as pessoas a olharem de outro ângulo para velhos problemas, contando uma história e sendo coerente com suas atitudes. Ao retroagir e retirar a campanha do ar, antes mesmo de ser obrigada a fazê-lo, a Dove assumiu uma postura covarde, buscando a saída mais fácil (SQN), politicamente correta, para evitar mais barulho.

A propaganda está a cada dia mais refém desse tipo de julgamento nas redes sociais. Sabemos que a propaganda não vem com bula. Ou você olha e entende a mensagem que ela quer passar, ou ela não funcionou. Mas daí emitir juízo de valor baseado apenas no que você “acha”, não é o caminho mais inteligente.

A internet, através das diversas ferramentas e suas redes sociais, deu voz a todos. Mas é preciso ter coerência antes de sair criticando, julgando e acusando marcas e pessoas baseados apenas em nosso ponto de vista. As pessoas se tornaram especialistas em qualquer assunto. E o pior é ver que nenhuma voz do mercado se levanta em defesa da propaganda crítica, bem-humorada, livre de ‘pré-conceitos’, que brinca e faz sorrir.

Estamos caminhando a passos largos para o passado.

Quem sabe não voltamos a usar o nome de “Reclame” para as novas peças publicitárias.

Não demora muito, e só nos restará fazer anúncios descritivos/informativas sem nenhum conceito criativo, como nos tempos de outrora.



*Luiz Carlos Pereira é diretor Executivo da Onze.ag.



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